Entre pergaminhos humanos e bits eletrônicos

O livro na era do computador



Raquel Wandelli









O grande rolo de Isaías (séc. I a.C.), o maior (734 cm)
e mais bem preservado dos manuscritos do Mar
Morto descobertos em Qumran, 1947.

E afinal, o livro tem lugar na cultura globalizada ou está prestes a virar peça de museu? A Internet seria o substituto definitivo para esse objeto de orelhas, corpo, rodapé, colunas e folha de rosto que participou da própria invenção do humano? Especulações sobre o destino da cultura de papel na era da informática pecam por desconsiderar que antigos manuscritos e incunábulos não são objetos humanos que se opõem ao computador, artificial e frio, em uma dicotomia do tipo natureza versus cultura. No imaginário popular, a leitura e a escrita seriam aptidões naturais, assim como comer, dormir, andar. Apaga-se o fato de que livros de papel são eles próprios invenções tecnológicas.

Um esquecimento, aliás, explicável: se consideramos o pergaminho como protótipo do livro moderno, lá se vão mais de 20 séculos (os primeiros códices de pergaminho datam do século II a.C., embora a técnica só tenha alcançado difusão na Europa a partir do século IV). Se recuamos um pouco mais e tomamos como referência as tabuletas de argila e os velhos papiros dos mesopotâmios, a memória livresca se perde na antigüidade dos egípcios, gregos e romanos.

É tempo suficiente para naturalizarmos essa convivência e não ignorarmos o livro como um elemento de cultura que se modifica e se adapta aos aparatos tecnológicos de forma lenta, mas profunda. Cada corpo que lhe deu abrigo alterou a forma de leitura e nossa própria relação com o conhecimento. Seja na passagem do papiro (papel obtido do preparo de hastes de juncos) para o pergaminho (feito de pele de animal) ou na passagem das pesadas encadernações do século XVIII para os livros de bolso e finalmente para o livro eletrônico, muito mudou.

Agora como nunca, a(s) história(s) do livro e da leitura começa(m) a sair dos círculos dos bibliófilos e eruditos para satisfazer a curiosidade pública geral. E não é paradoxal que caia no interesse popular exatamente quando as previsões mais apocalípticas anunciam o fim da cultura do papel, se é o medo do desconhecido que faz a modernidade debruçar-se sobre o passado. No momento em que hábitos de leitura se modificam de forma drástica, acorremos ao passado para compreender e suportar melhor a revolução tecnológica, sem a impressão de dar um salto no abismo escuro. A História nos dá, senão a garantia, ao menos a impressão de que o futuro vizinho é fruto e continuação de nossos próprios passos.

É um campo fascinante, que atrai ficcionistas e estudiosos como atraiu Osman Lins, de Avalovara, Ricardo Piglia, de Cidade Ausente, Humberto Eco, de O Nome da Rosa e o iugoslavo Milorad Pávitch, de O Dicionário Kazar, romances cujas tramas recriam a história do livro e nos quais este é quase um vivo objeto protagonista. No campo ensaístico, Roger Chartier, de A Aventura do Livro; do leitor ao navegador e Alberto Manguel, de Uma História da leitura, apresentam duas obras atualíssimas e ricamente ilustradas.


Santo Ambrósio (Anônimo, Suíça, séc. XV).

Um dos momentos mais fascinantes desses relatos fala da descoberta da leitura silenciosa, ainda no início do primeiro milênio. Eles retomam as Confissões em que santo Agostinho (século III) registra seu olhar de assombro ao entrar na Biblioteca do monastério de Milão e surpreender o bispo Ambrósio lendo na cela individual. Vindo do Norte da África, o professor de retórica latina e elocução viajara pelo mundo, mas jamais imaginara, em sua vasta cultura, que alguém pudesse ler daquela forma, sem mover os lábios, com a língua quieta, usando apenas os olhos e a mente e buscando o sentido no coração. Era um revertério para a leitura fonocêntrica, em voz alta, calcada no som e no ritmo. A epifania de Santo Agostinho nos provoca outra, nem tão pequena, nem tão óbvia quanto parece: a leitura também é uma técnica.

Uma viagem livresca no tempo permite perceber ainda que todos os aparatos tecnológicos assumidos pelo livro coexistem na era da informática. Pensemos nos griots, os guerreiros cantadores que viajam a pé de uma tribo a outra em algumas regiões da África Ocidental, como Bambara e Malinke. O predomínio quase total da oralidade e a ausência de livros não impedem que as palavras caminhem no corpo dos guerreiros, dando permanência à cultura dessas gentes. Tatuadas no aparato de escrita mais primitivo do mundo — a própria pele —, as palavras caminham e contam histórias das tribos, genealogia, magia, ritos. Exibem mapas geográficos, canções, ideogramas com avisos de guerra. Enquanto isso, no continente ao lado, a comunicação se dá via satélite.

A web é, em si, muito mais uma quimera tecnológica, onde coabitam formas passadas, presentes e futuras, do que uma superação total do velho pelo novo. Como bem anotou Pierre Lévy, em Tecnologias da inteligência, o computador sobrepõe diversas mídias (televisão, telex, livro, rádio, telefone, fax, vídeo, gravador, cinema) em um sincretismo de formas e linguagens (verbal, oral, icônica), sem se reduzir a nenhuma delas. O novo não apaga o velho, como na imagem do palimpsesto, antigo pergaminho submetido a uma solução química para receber nova inscrição, de forma que era possível encontrar sob a superfície raspada, as camadas anteriores de escrita. O novo não apaga o velho, mas ao incidir sobre ele recria-o, transforma-o.

A roda da história circunscreve seu traçado torto e a cada nova espiral, ao mesmo tempo retoma e modifica velhas práticas de leitura. Os chats, grupos de discussão ou a correspondência trocada pela Internet mostram que o meio eletrônico recupera, por exemplo, certa espontaneidade e fluidez da literatura oral. Pode também devolver a voz ao texto, sem roubar a imagem da escrita, além de retomar a iconografia. Mas a leitura vertical na tela, através da barra de rolamento, padece da limitação dos rolos de pergaminho, que obrigavam o leitor a seguir parte por parte, com as mãos presas ao aparato. Nesse aspecto, o livro moderno manteria a vantagem de permitir uma visualização mais imediata do todo da obra ao ser manipulado horizontalmente. Por outro lado, o leitor não pode reescrevê-lo e modificá-lo com a mesma facilidade que teria no computador. Fisicamente liberado do suporte da leitura e encorajado pelas ferramentas tecnológicas a se intrometer no texto, o navegador experimenta uma produtiva confusão de papéis entre autor e leitor.

Entre as mudanças impactantes do computador está a inigualável heterogeneidade do meio. Capaz de associar imagem, som e movimento ao verbal, provoca quase uma experiência extática, embora desvalorize o sentido do tato — a sensação afetiva de se acariciar um livro ou de se guardar uma lágrima nas páginas amarelas do papel, como bem anotou José Saramago. Talvez o maior impacto, além da desmaterialização do corpo do livro, seja a privatização cada vez maior do ato de leitura. Chartier aponta para uma separação da leitura de toda forma de espaço comunitário que ainda sobrevive ao período industrial, a exemplo dos saraus literários, escolas, bibliotecas, cafés, ônibus. Por outro lado, o aspecto coletivo da leitura pode ser recuperado, senão de corpo, ao menos virtualmente, nos grupos de discussão e na leitura a várias mãos que só uma rede interligada de computadores proporciona.

Há perdas e ganhos a cada grande mudança. Vantagens e desvantagens. Mas os períodos de transição tecnológica são únicos porque revelam para os que nele vivem os elos da História. É um privilégio para leitores e historiadores participar dessa experiência, por mais traumática e desafiante que seja. A multiplicidade de recursos e oferta democrática de aparatos de leitura deve ser incentivada. O múltiplo é includente, enquanto o domínio de uma só tecnologia exclui e marginaliza. Então, que ao lado dos imputs magnéticos do e-book haja lugar para as velhas superfícies de inscrição. Que os navegadores possam “baixar” o novo suspense de Stephen King na Internet, mas também que os cantadores negros continuem a desfilar seus corpos-livros pela África, feito pergaminhos ambulantes. E que haja sempre obras de papel para nos humanizar entre suas asas.


RAQUEL WANDELLI
é jornalista, doutora em teoria literária
e professora universitária.

© Raquel Wandelli, 2000.
Texto reproduzido com a autorização da autora
[ Imagens: Escritório do Livro ]