Leitor amigo


Eça de Queirós




in O Livro e a Leitura em Eça de Queirós.
Seleção e apresentação de Maria do Rosário Cunha.
(Florianópolis: Escritório do Livro, 2007).





Nos tempos em que Voltaire, depois de Candide, mesmo já depois da Pucelle, se contentava com cem leitores — tempos que nos devem parecer bem incultos, neste ano da Graça e de voraz leitura em que o Petit Journal tira oitocentos mil números, e Germinal é traduzido em sete línguas para que o bendigam sete povos — esses cem homens que liam e que satisfaziam Voltaire, eram tratados pelos escritores com um cerimonial e uma adulação, que se usavam sòmente para com os príncipes de sangue e as favoritas. Em verdade o leitor de então, o amigo leitor, pertencia sempre aos altos corpos do Estado: o alfabeto ainda se não tinha democratizado: quase apenas sabiam ler as Academias, alguns da nobreza, os Parlamentos, e Frederico, rei da Prússia: e naturalmente o homem de letras, mesmo quando fosse um poeta parasita do melancólico tipo de Nicolau Tolentino, ao entrar em relações com esse leitor de grandes maneiras, emplumado, vestido talvez de arminho, empregava todas as formas e todas as graças do respeito e punha sempre, genuínos ou fingidos, os punhos de renda de Mr. de Buffon.

Mas esta cortesia, em que havia emoção, provinha sobretudo de que o escritor, há cem anos, dirigia-se particularmente a uma pessoa de saber e de gosto, amiga da eloquência e da tragédia, que ocupava os seus ócios luxuosos a ler, e que se chamava o Leitor: e hoje dirige-se esparsamente a uma multidão azafamada e tosca que se chama o público.

Esta expressão, a leitura, há cem anos, sugeria logo a imagem de uma livraria silenciosa, com bustos de Platão e de Séneca, uma ampla poltrona almofadada, uma janela aberta sobre os aromas de um jardim: e neste retiro austero de paz estudiosa, um homem fino, erudito, saboreando linha a linha o seu livro, num recolhimento quase amoroso. A ideia de leitura, hoje, lembra apenas uma turba folheando páginas à pressa, no rumor de uma praça.

Era quando este leitor, douto, agudo, amável, bem empoado, íntimo das idades clássicas, recebia o escritor na sua solidão letrada — o escritor necessitava apresentar se com reverência, e modestement courbé, como recomenda Beaumarchais. É um homem culto que vai a casa de outro homem culto — e esse encontro está regulado por uma etiqueta tradicional e graciosa..

Nem o filósofo que vem submeter um sistema, nem o poeta laureado no Mercúrio Galante que traz a sua ode, nem Chénier com as suas tragédias, nem Massilon com os seus sermões, nem os rígidos, nem os ligeiros, nenhum por mais ilustre irrompia bruscamente na atenção do leitor, sem espera e sem mesura, como se entra num pátio público. Tinha de haver uma apresentação condigna, solene, copiosa; e isso passava se nesse pedaço de prosa em tipo largo, com citações latinas, que se chamava o Prefácio. Aí, o autor modestement courbé, diante do leitor acolhedor e risonho, falava com prolixidade de si, das suas intenções, da sua obra, da sua saúde; dizia lhe doçuras, chamava lhe pio, perspicaz, benévolo: justificava os seus métodos, citava as suas autoridades: se era novo, mostrava, corando, a sua inexperiência em botão: se era velho, despedia-se do leitor à maneira de Boileau, numa pompa triste, como da borda de um túmulo. Trocadas estas cortesias não se entrava logo secamente nas ideias ou nos factos: se o livro era de versos, o poeta, tendo o leitor ao seu lado, balançava o incensador e fazia uma invocação aos deuses como nos degraus de um santuário; se era tratado de moral ou história, havia no limiar do capítulo I, para que o escritor e o leitor repousassem, um pórtico de considerações gerais, dispostas com simetria à maneira de colunas de puro mármore, onde se enrolavam, em festões, flores de linguagem, viçosas ou meio murchas. Depois o autor ia levando o leitor pela mão através da sua obra como através de um jardim que se mostra, repercorrendo com gosto as áleas mais enfeitadas de erudição, parando por vezes a conversar docemente à sombra de um pensamento frondoso. Assim se formava entre ambos uma enternecida intimidade espiritual. O leitor possuía no homem de letras um companheiro de solidão, de um encanto sempre renovado. O autor encontrava no leitor uma atenção demorada, fiel, crente: como filósofo tinha nele um discípulo, como poeta um confidente.[...]


Referência:
“Prefácio dos Azulejos do conde de Arnoso”
in Notas contemporâneas,
Lisboa, Ed. Livros do Brasil, 3ª ed., s/d. pp. 95-99


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