Sobre Livros & Leituras: o que diz...





Virginia Woolf: O único conselho que realmente se pode dar sobre leituras é o de não aceitar conselhos, seguir o próprio instinto, usar o próprio discernimento e chegar às suas próprias conclusões. Afinal, que regra pode-se estabelecer sobre os livros? (“How should one read a book”, 1926.)

Charles Baudelaire: Toda boa escultura, toda boa pintura, toda boa música sugere os sentimentos e devaneios que quer sugerir. Mas o raciocínio, a dedução, pertencem ao livro. (“L'art Philosophique”, 1869.)

Jorge Luis Borges: De los diversos instrumentos del hombre, el más asombroso es, sin duda, el libro. Los demás son xtensiones de su cuerpo. El microscopio, el telescopio, son extensiones de su vista; el teléfono es extensión de la voz; luego tenemos el arado y la espada, extensiones de su brazo. Pero el libro es otra cosa: el libro es una extensión de la memoria y de la imaginación. (...)
Se habla de la desaparición del libro; yo creo que es impossible. Se dirá qué diferencia puede haber entre un libro y un periódico o un disco. La diferencia es que un periódico se lee para el olvido, es algo mecánico y por lo tanto frívolo. Un libro se lee para la memoria. (...)
Si leemos un libro antiguo es como si leyéramos todo el tiempo que ha transcurrido desde el día en que fue escrito y nosotros. Por eso conviene mantener el culto del libro. El libro puede estar lleno de erratas, podemos no estar de acuerdo con las opiniones del autor, pero todavía conserva algo sagrado, algo divino, no con respeto superticioso, pero sí con el deseo de encontrar felicidad, de encontrar sabiduría. (“El Libro”, conferência pronunciada na Universidade de Belgrano, 24/05/1978.)

Marcel Proust: o que difere essencialmente um livro de um amigo não é sua menor ou maior sabedoria, mas o modo como comunicamos com ele, a leitura, a contrapelo da conversa, consistindo para cada um de nós em receber comunicação de outro pensamento, porém a sós, isto é, continuando a usufruir do poder intelectual que se tem na solidão e que a conversa imediatamente desfaz (...)
É uma das grandes e maravilhosas características dos belos livros (e que nos faz compreender o papel ao mesmo tempo essencial e limitado que a leitura sabe ter em nossa vida intelectual), eles poderem para o autor chamar-se Conclusões e para o leitor, Incitações. Sentimos muito bem que nossa sabedoria começa onde termina a do autor, e gostaríamos que ele nos trouxesse respostas, quando tudo o que ele pode fazer é trazer-nos desejos. É quando nos disse tudo o que podia dizer que ele faz brotar em nós o sentimento de que ainda não disse nada. (“Journées de Lecture”, Pastiches et Mélanges.)

Montaigne: Meu intento é passar mansa, não laboriosamente, o que me resta de vida: não há por quê me romper a cabeça, nem pela ciência, por mais que ela valha. Nada busco nos livros senão o prazer de um entretenimento honesto ou, estudando, a ciência que trata do conhecimento de mim mesmo e me ensina a bem morrer e viver. Não faço nada sem alegria. (“Des Livres”, Essais.)

Georg Christoph Lichtenberg (1742-1799, médico e escritor alemão): Não existe no mundo um artigo mais estranho que o livro. É impresso por gente que não o compreende; é vendido por gente que não o compreende; é encadernado, criticado e lido por gente que não o compreende; e agora, é até mesmo escrito por gente que não o compreende. (Aphorisms)

Walter Benjamin: “Por que você coleciona livros?” — Alguém já fez essa pergunta a um bibliófilo, para induzi-lo à auto-reflexão? Como seriam interessantes as respostas, pelo menos as sinceras! Pois apenas os não-iniciados poderiam crer que não existe aqui o que esconder ou racionalizar. Arrogância, solidão, amargura — muitas vezes esse é o lado noturno de muitos colecionadores cultos e bem-sucedidos. Toda paixão revela de vez em quando os seus traços demoníacos, e nada confirma tão cabalmente essa verdade como a história da bibliofilia. Não existe nada disso no credo de colecionador de Karl Hobrecker, cuja grande coleção de livros infantis é agora revelada ao público através de sua obra. Para quem não se deixasse sensibilizar pela personalidade cordial e refinada do autor, nem pelo próprio livro, em cada uma de suas páginas, só poderíamos dizer o seguinte: esse tipo de coleção — o de livros infantis — só pode ser apreciado por quem se manteve fiel à alegria que experimentou quando criança, ao ler esses livros. Essa fidelidade está na origem de sua biblioteca, e toda coleção, para prosperar, precisará de algo semelhante. Um livro, ou mesmo uma página, e até uma simples imagem num exemplar antiquado, talvez herdado da mãe ou da avó, podem ser o solo no qual esse impulso lançará suas primeiras e delicadas raízes. Pouco importa se a página está solta, se faltam páginas ou se aqui e ali mãos inábeis amarrotaram as gravuras. A procura de belos exemplares também é legítima nesse tipo de coleção, mas justamente aqui o pedante ficará perplexo. É uma boa coisa que a pátina depositada nas folhas por mãos infantis pouco asseadas mantenham à distância o bibliófilo esnobe. (Rua de Mão Única. Trad. de Rubens Rodrigues Torres Filho.)

William Morris: Se me pedissem para dizer qual é, a um só tempo, a mais importante produção da Arte e a coisa a ser mais almejada, eu responderia: uma bela Casa; e se me perguntassem então qual a segunda produção mais importante e a segunda coisa a ser almejada, eu responderia: um belo Livro. Usufruir de boas casas e bons livros com auto-respeito e decente conforto parece-me ser o prazeroso objetivo pelo qual toda sociedade de seres humanos deveria agora lutar. (“Some thoughts on the ornamented books of the Middle Ages”, c. 1892)

Emil Ruder: Desde os primórdios da imprensa, no século XV, até os produtos impressos do século XX, todos os esforços têm-se dirigido para uma meta: divulgar a informação o mais econômica e rapidamente possível. As únicas exceções foram as edições refinadas impressas no final do século passado e no início deste, numa época em que se manifestava uma admiração cega pelo progresso técnico e a industrialização que o acompanhava. Com isto descobrimos algo totalmente oposto à natureza essencial da tipografia: a edição de luxo, de reduzida tiragem, que dava a cada exemplar o privilégio de ser um livro raro, e portanto muito caro. Foi, no entanto, graças àquelas edições limitadas que chegamos a reconhecer certos requisitos da tipografia: o sentido das formas impressas e a compreensão de sua natureza; a correta ordenação das letras em palavras, em páginas e em áreas compactas dispostas dentro de uma justa relação com a superfície não impressa; a construção de um livro a partir da página dupla; a unidade dos tipos e as limitações inerentes ao modelo e ao corpo das letras.
No início do século XX surgiram as críticas ao bibliófilo; não se justifica a “mera” beleza de um livro de tiragem reduzida; um livro deve ser belo e barato, o que requer a maior tiragem possível. Hoje, o livro converteu-se num artigo barato e de amplo consumo, e sem dúvida a tipografia nisto encontra o seu verdadeiro destino como instrumento de comunicação de massas. (Manual de Desenho Tipográfico.)

José Mindlin: Além do conteúdo, edição, encadernação, diagramação, tipografia, ilustração, ou papel, o livro exerce sobre mim uma atração física. Não me satisfaz ver um livro numa vitrine, sem poder pegá-lo. Minha tese é que a gente deve poder tocar naquilo que gosta, sentir objetos e pessoas.
...Vale a pena assinalar que o começo da imprensa encontrou, ou despertou, uma sede de saber inesperada, e provocou uma revolução na difusão do conhecimento, comparável, se não superior, à que representou a introdução da informática. Basta dizer que nesse período foram publicados no Ocidente cerca de trinta e cinco mil títulos, com tiragens médias de duzentos a trezentos exemplares, o que representou o surgimento de mais de dez milhões de volumes, num mundo muito menor, e quando em toda a Europa a maior parte da população era analfabeta! (Uma Vida entre Livros, 1997.)

Robert Darnton: Consideremos o livro. Possui uma resistência extraordinária. Desde a invenção do códice, no terceiro ou quarto século D.C., demonstrou ser uma máquina maravilhosa — excelente para estocar informação, conveniente para folhear, confortável de se aconchegar com ele, fantástico de se guardar, e notavelmente resistente ao estrago. Não precisa ser atualizado ou baixado, acessado ou inicializado, plugado em circuitos ou extraído da rede. Seu design faz dele um deleite para os olhos. Sua forma faz com que seja um prazer tê-lo em mãos. E sua manuseabilidade fez dele o instrumento básico do saber por milhares de anos, antes mesmo de a Biblioteca da Alexandria ter sido fundada no século IV A.C.(...)
O mundo do saber está mudando tão rapidamente que ninguém saberia prever com que se parecerá dentro de uns 10 anos. Mas acredito que vá permanecer no âmbito da Galáxia de Gutemberg — embora a galáxia venha a se expandir, graças a uma nova fonte de energia, o livro eletrônico, que atuará como suplemento, e não como substituto, da grande máquina de Gutemberg. (“The New age of the Book”, artigo publicado em 18/03/99 no New York Books.)

Wilson Martins: Não podemos perder de vista que o livro não é uma mercadoria como as outras. Seu emprego pressupõe a delicadeza de trato, o bom gosto, a finura intelectual, os ambientes em que a inteligência e não a matéria deve reinar soberanamente. Mesmo quando, na mão de um professor ou de um escritor, ele não passa de um “instrumento de trabalho”, de uma “ferramenta”, o livro guarda a sua superioridade própria e venerável de veículo privilegiado, de forma pela qual a idéia se transmite. Assim, tanto quanto possível, o livro deve ser belo e valioso inclusive como objeto e deve ser agradável à vista e ao tato, como é agradável à mente. Reduzi-lo à condição de mera mercadoria é vilipendiá-lo, é humilhá-lo na sua natureza e, o que é pior, é tornar o homem indigno dele. (A Palavra Escrita, 1957.)

Alphonse de Lamartine: A imprensa é o telescópio da alma. Assim como este instrumento de ótica, chamado telescópio, aproxima do olho, ao aumentá-los, todos os objetos da criação, os átomos e até os astros do universo visível, assim a imprensa aproxima e põe em comunicação imediata, contínua, perpétua, o pensamento do homem isolado com todos os pensamentos do mundo invisível, no passado, no presente e no futuro. Disseram que as ferrovias suprimiriam as distâncias; podemos dizer que a imprensa suprimiu o tempo (...)
Daqui a alguns anos, uma palavra pronunciada e reproduzida num ponto qualquer do globo poderá iluminar ou fulminar o universo. A palavra, através do procedimento aperfeiçoado por Gutenberg, voltará a ser, pela matéria, tão imaterial como quando era apenas pensamento. (Gutenberg, 1858.)

Honoré de Balzac: A impressão é para os manuscritos o que o teatro é para as mulheres: ilumina as belezas e os defeitos; tanto mata como dá vida; uma falha salta então aos olhos tão vivamente quanto os belos pensamentos. (Ilusões Perdidas, 1837.)

Jules Richard: Tendo usufruído de todos os bens desse mundo na justa medida de meus meios e forças, posso, sem hipocrisia, constatar aqui que, de todos os prazeres, os que provêm do amor aos livros são, se não os mais vivos, pelo menos os mais facil e longamente renováveis. (L'Art de former une bibliothèque., 1883.)

Maurice Blanchot: A leitura que toma a obra pelo que ela é, e, assim, a desembaraça de todo o autor, não consiste em introduzir, no lugar dele, um leitor, uma pessoa fortemente existente, possuidora de uma história, uma profissão, uma religião e até de leitura, que, a partir de tudo isso, começaria, com a outra pessoa que escreveu o livro, um diálogo. A leitura não é uma conversação, ela não discute, não interroga. Jamais pergunta ao livro e, com mais fortes razões, ao autor: “O que foi que você quis dizer exatamente? Que verdade me traz, portanto?” A leitura verdadeira jamais questiona o livro verdadeiro; mas tampouco é submissão ao “texto”. Somente o livro não literário se oferece como uma rede solidamente tecida de significações determinadas, como um conjunto de afirmações reais: antes de ser lido por alguém, o livro não literário já foi lido por todos e é essa leitura prévia que lhe assegura uma existência firme. Mas o livro que tem sua existência na arte não tem sua garantia no mundo, e quando é lido, nunca foi lido ainda, só chegando à sua presença de obra no espaço aberto por essa leitura única, cada vez a primeira e cada vez a única.
Daí a estranha liberdade de que a leitura — literária — nos dá o exemplo. Movimento livre, se ela não está submetida, se não se apóia em nada que lhe esteja presente. O livro aí está, sem dúvida, não só a sua realidade de papel e de impressão, mas também a sua natureza de livro, esse tecido de significações estáveis, essa afirmação que ele deve a uma linguagem preestabelecida, esse cercado, também, que forma em redor dele a comunidade de todos os leitores, entre os quais, eu que não o li, já me encontro, e esse cercado é ainda o de todos o livros que, como anjos de asas entrelaçadas, velam estreitamente sobre esse volume desconhecido, pois um único livro em perigo ocasiona uma perigosa brecha na biblioteca universal. O livro, portanto, aí está, mas a obra ainda está escondida, ausente talvez radicalmente, dissimulada, em todo o caso, ofuscada pela evidência do livro, por trás da qual aguarda a decisão libertadora, o Lázaro, veni foras.
Fazer cair essa pedra parece ser a missão da leitura: torná-la transparente, dissolvê-la pela penetração do olhar que, com ímpeto, vai mais além. (...) (O espaço literário.)

Benedito Nunes: Qual a importância ética da leitura? (...) O meu ponto de partida, implicando tomar a palavra ética no sentido amplo de ethos, modo de ser e agir do homem — e privilegiando a leitura de determinados textos, os ficcionais de caráter literário —, é que a importância ética da leitura está no seu valor de descoberta e de renovação para a nossa experiência intelectual e moral. A prática da leitura seria um adestramento reflexivo, um exercício de conhecimento do mundo, de nós mesmos e dos outros.
Por certo que essa prática é solitária. Quem lê isola-se por momentos do mundo, à rebours de la conversation, como observou Proust, e recolhe-se na companhia do livro, à escuta de sua silenciosa conversa. Mas nesse recolhimento, provocado por outra voz que não a nossa e a daqueles que nos rodeiam, trava-se uma singular dialética entre nós mesmos e o texto. A experiência da leitura, particular e momentânea, reverte a favor da experiência da vida, geral e cumulativa. (...)
Os textos literários são obras de discurso a que falta a imediata referencialidade da linguagem corrente: poéticos, abolem, “destroem” o mundo circundante, cotidiano, graças à função irrealizante da imaginação que os constrói. E prendem-nos na teia de sua linguagem, a que devem o poder de apelo estético que nos enleia; seduz-nos o mundo outro, irreal, neles configurado, a que aderimos por uma willing suspension of disbelief (desejada suspensão da descrença), assim chamado por Coleridge o efeito de continuidade do apelo estético. No entanto, da adesão a esse “mundo de papel”, quando retornamos ao real, nossa experiência, ampliada e renovada pela experiência da obra, à luz do que nos revelou, possibilita redescobri-lo, sentindo-o e pensando-o de maneira diferente e nova. A ilusão, a mentira, o fingimento da ficção aclara o real ao desligar-se dele, transfigurando-o; e aclara-o já pelo insight que em nós provocou. (“Ética e Leitura”, in Valdir Heitor (org.). Estado de Leitura, 1999.)

Arturo Pérez-Reverte: En cuanto a mí, sólo sé que no sé nada. Y cuando quiero saber busco en los libros, a los que nunca falla la memoria. (El Club Dumas, 2000.)

Paul Valéry: Os livros têm os mesmos inimigos que o homem: o fogo, a umidade, os bichos, o tempo, e seu próprio conteúdo. (Moralités, 1936.)

Monteiro Lobato: De escrever para marmanjos já estou enjoado. Bichos sem graça. Mas para crianças um livro é todo um mundo. Lembro-me de como vivi dentro do Robinson Crusoé do Laemmert. Ainda acabo fazendo livros onde as nossas crianças possam morar. Não ler e jogar fora; sim morar, como morei no Robinson e n’Os filhos do capitão Grant." (A Barca de Gleyre. t. 2. São Paulo: Brasiliense, 1955, p. 293)