Sobre o livro & a leitura


O que pintam e dizem...

SELEÇÃO & TRADUÇÃO

Dorothée de Bruchard

Marcel Proust

O que distingue essencialmente um livro de um amigo não é sua menor ou maior sabedoria, e sim o modo como nos comunicamos com ele, a leitura consistindo para cada um de nós, a contrapelo da conversa, em receber comunicação de outro pensamento, mas a sós, isto é, continuando a usufruir do poder intelectual que se tem na solidão e que a conversa imediatamente desfaz. [...]
Uma das grandes e maravilhosas características dos bons livros (e que nos faz compreender o papel ao mesmo tempo essencial e limitado que a leitura sabe ter em nossa vida intelectual) é eles poderem se chamar, para o autor, de Conclusões e para o leitor, de Incitações. Bem percebemos que nossa sabedoria começa onde termina a do autor, e queríamos que ele nos trouxesse respostas, sendo que só o que ele nos pode trazer são desejos. Quando já nos disse tudo o que podia dizer é que ele faz brotar em nós a sensação de que ainda não disse nada. (“Journées de Lecture”, Pastiches et Mélanges, 1919.)

Etienne Moreau-Nelaton. L’enfant au livre, 1903. Paris: Musée d’Orsay

Virginia Woolf

O único conselho que uma pessoa pode de fato dar a outra sobre leituras é o de não aceitar conselhos, seguir sua própria intuição, usar seu próprio discernimento e chegar às suas próprias conclusões. Afinal, que normas se poderiam instituir sobre os livros? Será Hamlet uma peça melhor que o Rei Lear? Não há como dizer. É uma pergunta que cada um deve responder por si mesmo. Admitir autoridades em nossas bibliotecas e deixar que nos digam como ler, o que ler, que valor dar àquilo que lemos, equivale a destruir o espírito de liberdade que é a vida desses santuários. Em qualquer outro lugar podemos estar sujeitos a normas e convenções — aqui não há nenhuma. (“How should one read a book”, palestra proferida numa escola para meninas de Kent em janeiro de 1926.)

Vanessa Bell. Virginia Woolf in a deckchair, 1912. Col. particular.

Paul Valéry

Os livros têm os mesmos inimigos que o homem: o fogo, a umidade, os bichos, o tempo, e seu próprio conteúdo. (Moralités, 1936.)

Paul Signac. Nature morte au livre et oranges, 1883. Col. particular.

John Ruskin

O livro era algo nobre e sagrado, a ser respeitado e venerado. Era o meio de dar permanência à mais efêmera e evanescente das coisas: o pensamento humano. (“The distinction between illumination and painting”, palestra proferida no Architectural Museum, Westminster, 18/11/1854)

Anônimo. Martin Luther (detalhe), antes de 1626. Londres: Dulwich Picture Gallery.

Jorge Luis Borges

De los diversos instrumentos del hombre, el más asombroso es, sin duda, el libro. Los demás son extensiones de su cuerpo. El microscopio, el telescopio, son extensiones de su vista; el teléfono es extensión de la voz; luego tenemos el arado y la espada, extensiones de su brazo. Pero el libro es otra cosa: el libro es una extensión de la memoria y de la imaginación. [...]
Se habla de la desaparición del libro; yo creo que es impossible. Se dirá qué diferencia puede haber entre un libro y un periódico o un disco. La diferencia es que un periódico se lee para el olvido, es algo mecánico y por lo tanto frívolo. Un libro se lee para la memoria. [...]
Si leemos un libro antiguo es como si leyéramos todo el tiempo que ha transcurrido desde el día en que fue escrito y nosotros. Por eso conviene mantener el culto del libro. El libro puede estar lleno de erratas, podemos no estar de acuerdo con las opiniones del autor, pero todavía conserva algo sagrado, algo divino, no con respeto superticioso, pero sí con el deseo de encontrar felicidad, de encontrar sabiduría. (“El Libro”, conferência pronunciada na Universidade de Belgrano, 24/05/1978.)

| SARA FACIO | Borges (in Retratos y Autorretratos, 1973).

Maria Valéria Rezende

O bugre trazia os livros que já não podia ler, porque a vista lhe falhava, mas que gostava de abrir e apoiar nos joelhos, dizendo que pelo cheiro lembrava bem direitinho da história de cada um, de tanto que tinha lido e, pensando, imaginando o que cada um revelava, fechava os olhos e lia dentro da cabeça dele as histórias que eu ouvia sem cansar, enquanto olhava prás folhas que ele devagar virava, doidinho para descobrir o segredo das palavras desenhadas no papel.
(O voo da guará vermelha, 2005.)

| NORVAL MORRISSEAU | The Storyteller: The Artist and His Grandfather, 1978.
Gatineau, QC: Canada Aboriginal Art Collection.

Arturo Pérez-Reverte

En cuanto a mí, sólo sé que no sé nada. Y cuando quiero saber busco en los libros, a los que nunca falla la memoria. (El Club Dumas, 2000.)

| Oleksii NECHYPORENKO | Ucrânia. Reader, s/d.

Christian Bobin

Ler e escrever são dois pontos de resistência ao absolutismo do mundo.
(Les Ruines du ciel, 2009.)

| Gianni DE CONNO | Cartaz para o Prêmio literário Bancarella 2016.

Machado de Assis

Catei os próprios vermes dos livros, para que me dissessem o que havia nos textos roídos por eles.
— Meu senhor, respondeu-me um longo verme gordo, nós não sabemos absolutamente nada dos textos que roemos, nem escolhemos o que roemos, nem amamos ou detestamos o que roemos; nós roemos.
Não lhe arranquei mais nada. Os outros todos, como se houvessem passado palavra, repetiam a mesma cantilena. Talvez esse discreto silêncio sobre os textos roídos fosse ainda um modo de roer o roído. (Dom Casmurro, 1899.)

| Emilia SZEWCZYK DZIUBAK | Polônia. O gourmet, s/d.

Vincent Van Gogh

É a primeira vez que pego num livro depois de vários meses. Isso tem mexido comigo e me curado um bocado. (Carta a Théo, 24/03/1889.)

Van Gogh. Natureza morta com três livros, 1887. Amsterdã: Museu Van Gogh.

Paulo Freire

A leitura do mundo precede a leitura da palavra. [...] Se for capaz de escrever minha palavra estarei, de certa forma, transformando o mundo. O ato de ler o mundo implica uma leitura dentro e fora de mim. Implica na relação que eu tenho com esse mundo. (A importância do ato de ler, 1981)

| EKUA HOLMES | Sem título, 2007.

Maurice Blanchot

A leitura não é uma conversação, ela não discute, não interroga. Jamais pergunta ao livro e, com mais fortes razões, ao autor: “O que foi que você quis dizer exatamente? Que verdade me traz, portanto?” A leitura verdadeira jamais questiona o livro verdadeiro; mas tampouco é submissão ao “texto”. Somente o livro não literário se oferece como uma rede solidamente tecida de significações determinadas, como um conjunto de afirmações reais [...]. O livro que tem sua existência na arte não tem sua garantia no mundo, e quando é lido, nunca foi lido ainda, só chegando à sua presença de obra no espaço aberto por essa leitura única, cada vez a primeira e cada vez a única.
Daí a estranha liberdade de que a leitura — literária — nos dá o exemplo. Movimento livre, se ela não está submetida, se não se apóia em nada que lhe esteja presente. O livro aí está, sem dúvida, não só a sua realidade de papel e de impressão, mas também a sua natureza de livro, esse tecido de significações estáveis, essa afirmação que ele deve a uma linguagem preestabelecida, esse cercado, também, que forma em redor dele a comunidade de todos os leitores, entre os quais, eu que não o li, já me encontro, e esse cercado é ainda o de todos o livros que, como anjos de asas entrelaçadas, velam estreitamente sobre esse volume desconhecido, pois um único livro em perigo ocasiona uma perigosa brecha na biblioteca universal. (O espaço literário, trad. Álvaro Cabral, Rocco, 2011.)

Tarsila do Amaral. Beatriz lendo, 1965. Col. particular.

Graham Greene

Todo livro é, na infância, um livro de adivinhação que nos fala sobre o futuro e, qual cartomante que vê nas cartas uma longa viagem ou a morte pela água, ele influencia o futuro. (The Lost Childhood and Other Essays, 1962)

Alexandros Christofis (1882-1953). Menino lendo, s/d. Col particular.

William Morris

Se me pedissem para dizer qual é, a um só tempo, a mais importante produção da Arte e a coisa a ser mais almejada, eu responderia: uma bela Casa; e se me perguntassem então qual a segunda produção mais importante e a segunda coisa a ser almejada, eu responderia: um belo Livro. Usufruir de boas casas e bons livros com auto-respeito e decente conforto parece-me ser o prazeroso objetivo pelo qual toda sociedade humana deveria agora lutar. (“Some thoughts on the ornamented books of the Middle Ages”, c. 1892)

Dante Gabriel Rossetti. Portrait of Jane Morris, 1873. Col particular.

Doris Lessing

Só existe uma maneira de ler, que é flanar pelas bibliotecas e livrarias, pegar os livros que nos atraem, ler somente esses, deixá-los de lado quando nos entediam, pular trechos que se arrastam — e nunca, jamais, ler nada por obrigação ou por estar na moda.

(The Golden Notebook, 1962)

Lembre-se de que o livro que o entedia quando você está com vinte ou trinta anos irá lhe abrir portas quando estiver com quarenta ou cinquenta, e vice-versa. Não leia um livro senão no momento certo para você.

Schmidt-Rottluff. Die Lesende, 1911. Col. particular.

Robert Darnton

Consideremos o livro. Possui uma resistência extraordinária. Desde a invenção do códice, no terceiro ou quarto século d.C., demonstrou ser uma máquina maravilhosa — excelente para estocar informação, conveniente para folhear, confortável de se aconchegar com ele, fantástico de se guardar, e notavelmente resistente ao estrago. Não precisa ser atualizado ou baixado, acessado ou inicializado, plugado em circuitos ou extraído da rede. Seu design faz dele um deleite para os olhos. Sua forma faz com que seja um prazer tê-lo em mãos. E sua manuseabilidade fez dele o instrumento básico do saber por milhares de anos, antes mesmo de a Biblioteca da Alexandria ter sido fundada no século IV a.C. [...]
O mundo do saber está mudando tão rapidamente que ninguém saberia prever com que se parecerá dentro de uns 10 anos. Mas acredito que vá permanecer no âmbito da Galáxia de Gutenberg — embora a galáxia venha a se expandir, graças a uma nova fonte de energia, o livro eletrônico, que atuará como suplemento, e não como substituto, da grande máquina de Gutenberg. (“The New age of the Book”, New York Books, 18/03/99).

| LEE MILBY | Books (detalhe), 2014.

Michel de Montaigne

Meu intento é passar mansa, não laboriosamente, o que me resta de vida: não há motivo para eu quebrar a cabeça, nem pela ciência, por mais valor que ela tenha. Nada busco nos livros senão o prazer de um entretenimento honesto ou, estudando, a ciência que trata do conhecimento de mim mesmo e me ensina a bem morrer e viver. Não faço nada sem alegria. (“Des Livres”, Essais, 1580.)

Jonathan Wolstenholme. Book on books, 2003.

Amos Oz

Minha ambição, menino, era ser um livro quando crescesse. Não um escritor. Pessoas se podem matar feito formigas. Escritores também se matam facilmente. Mas não os livros: por mais que se tente destruí-los, há sempre a chance de algum exemplar sobreviver e seguir curtindo sua vida de prateleira num canto qualquer de uma biblioteca perdida, em Reykjavík, Valladolid ou Vancouver. (A Tale of Love and Darkness, 2004.)

| ANSELM KIEFER | Volkszählung (detalhe), 2011–12.
Berlim: Hamburger Bahnhof Museum.

André Belo

Qualquer livro, em qualquer época, seja ele impresso ou manuscrito, traz em si, para além das marcas de um trabalho intelectual, marcas de práticas artesanais ou industriais, marcas de uma relação com o poder ou com outros indivíduos, marcas de um produto destinado a ser vendido ou trocado, marcas do estatuto social dos seus autores, marcas da relação do texto com o leitor, marcas de um uso da língua, enfim, marcas de um proprietário ou mesmo de um ato de leitura. Tudo o que está no livro, em qualquer livro, nos reenvia para fora dele. (História & Livro e leitura. Autêntica, 2002 p. 104.)

Bronzino (Agnolo di Cosimo di Mariano). Ritratto di giovane uomo con libro (detalhe), c. 1535.
N. York: The Metropolitan Museum of Art.

Julien Gracq

O laço que une o leitor à sua leitura é decerto inseparável do passar do tempo, mas nada define sua duração, seu ritmo, nem seu fim ou sua continuidade (quantos livros não são lidos por partes, às vezes espaçadas em longos anos!) Um livro se perde de vista e se torna a encontrar, ora fenecido, ora rearmado de sedução. Sua beleza é cotidiana, no sentido balzaquiano do termo — tem seus bons e maus momentos. Com ele vivemos a sedução a que cedemos depressa demais, mas também a lenta reconquista por qualidades inicialmente veladas. Ele se presta a sucessivas descobertas (nem tudo nele é perceptível de imediato), ao automatismo do hábito, ao célere desgaste do primeiro encanto, mas também a um entendimento firmado, às vezes, até a morte. (“Familiarité du livre”, 2001.)

| SOPHIE DUMONT | Books, 2015.

Castro Alves

Por isso na impaciência
Desta sede de saber,
Como as aves do deserto —
As almas buscam beber...
Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n’alma
É germe que faz a palma,
É chuva que faz o mar.

“O Livro e a América”. Espumas flutuantes, 1870.

Jacob Lawrence. The Library (detalhe), 1967. Pennsylvania Academy of the Fine Arts.

Heinrich Heine

Aqueles que queimam livros acabam,
cedo ou tarde, por queimar homens.
(Almansor, 1821)

Livros (p. 257) e judeus (p. 513) sendo queimados, em
| A CRÔNICA DE NUREMBERG | de Hartmann Schedel, impressa por Koberger em 1493.
Gravuras de Michael Wolgemut e Wilhelm Pleydenwurff.
 Munique: Bayerische Staatsbibliothek.

Charles Baudelaire

Toda boa escultura, toda boa pintura, toda boa música sugere os sentimentos e devaneios que quiser sugerir. Mas o raciocínio, a dedução, pertencem ao livro. (“L'Art Philosophique”, 1869.)

Gustave Courbet. Portrait de Charles Baudelaire, 1848. Montpellier: Musée Fabre.

Daniel Pennac

Toda leitura é um ato de resistência.

(Comme un roman, 1991)

O tempo para ler é sempre um tempo roubado. (Como é, aliás, o tempo para escrever, ou o tempo para amar.)
Roubado de quê? Da obrigação de viver, digamos.
Esse é decerto o motivo por que o metrô, símbolo rematado dessa obrigação, vem a ser a maior biblioteca do mundo. O tempo de ler, como o tempo de amar, dilata o tempo de viver.
Se considerássemos o amor pelo prisma da nossa agenda, quem se arriscaria? Quem tem tempo para se apaixonar? Acaso já se viu, no entanto, um apaixonado não achar tempo para amar?
Eu nunca tive tempo para ler, mas nada, nunca, me impediu de terminar um romance de que eu gostasse.

| DARREN THOMPSON | No place to sit, 2014. Col. particular.

Michel Foucault

O imaginário reside entre os livros e a lâmpada. [...] Para sonhar, não há que fechar os olhos, há que ler. [...] O imaginário não se constitui contra o real para negá-lo ou compensá-lo; ele se espraia por entre os signos, de livro para livro, no insterstício dos ditos-e-reditos e dos comentários; nasce e se forma no intervalo entre os textos. É um fenômeno de biblioteca. (“La Bibliothèque fantastique”, 1967.)

Anônimo. “Lamparina de leitura medieval” em manuscrito italiano de c. 1460-80.
Los Angeles: Paul Getty Museum, Ms. Ludwig VI 2.

Jacques Prévert

Não é uma voz apenas que canta
Há outras vozes, vozes aos montes
Vozes de hoje e dos tempos de antes
Vozes hilárias ensolaradas
Desesperadas maravilhadas. [...]

(“Cri du cœur”, Histoires, 1947.)

Pablo Picasso. La leçon, 1934. Col. particular.

Benedito Nunes

A importância ética da leitura está no seu valor de descoberta e de renovação para a nossa experiência intelectual e moral. A prática da leitura seria um adestramento reflexivo, um exercício de conhecimento do mundo, de nós mesmos e dos outros.
Por certo que essa prática é solitária. Quem lê isola-se por momentos do mundo, à rebours de la conversation, como observou Proust, e recolhe-se na companhia do livro, à escuta de sua silenciosa conversa. Mas nesse recolhimento, provocado por outra voz que não a nossa e a daqueles que nos rodeiam, trava-se uma singular dialética entre nós mesmos e o texto. A experiência da leitura, particular e momentânea, reverte a favor da experiência da vida, geral e cumulativa. [...]
Da adesão a esse “mundo de papel”, quando retornamos ao real, nossa experiência, ampliada e renovada pela experiência da obra, à luz do que nos revelou, possibilita redescobri-lo, sentindo-o e pensando-o de maneira diferente e nova. A ilusão, a mentira, o fingimento da ficção aclara o real ao desligar-se dele, transfigurando-o; e aclara-o já pelo insight que em nós provocou. (“Ética e Leitura”, in Valdir Heitor (org.). Estado de Leitura, 1999.)

Almada Negreiros. Sem título, 1930. Lisboa: Museu Calouste Gulbenkian.

© das traduções: | Dorothée de Bruchard | 2005.
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