O guarani num livro bilíngue

Dorothée de Bruchard


Excerto do artigo “A diferença em presença: o livro bilíngue”, publicado originalmente em
| EDIÇÃO: AGENTES E OBJETOS | (organizado por Ana Gruszynski, Bruno Martins,
Márcio Gonçalves. Belo Horizonte: PPGCOM / UFMG, 2018.

Ilustração de Rodrigo Abrahim |*| em Massacre indígena guarani, de Luiz Karai.

[...]  Mas se é fato que a edição bilíngue deste início de século reproduz, como não poderia deixar de ser, uma global conformidade à hegemonia da língua inglesa, também não deixa de registrar, por outro lado, o impulso de afirmar, resgatar ou preservar, mundo afora, línguas minoritárias ou dialetos regionais mal conhecidos, pouco difundidos, às vezes ameaçados de desaparecimento — como bem atesta o número crescente de publicações em inglês/galês, francês/bretão ou castelhano/quíchua, por exemplo.

No Brasil, onde a chamada literatura indígena tem conquistado maior visibilidade graças, em parte, a recente legislação
|1| visando à inclusão das culturas minoritárias, ainda são poucas, contudo, as obras publicadas em forma bilíngue. No setor infantojuvenil, um dos raros exemplos é Massacre indígena guarani / Jurua reve nhande kuery joguero’a ague, em que Luiz Karai (2006) narra os desastrosos efeitos da chegada do homem branco numa aldeia indígena, segundo a versão recontada há mais de século pelo povo Guarani e que lhe foi transmitida, em guarani, por sua avó.

Essencialmente voltada para a divulgação da memória, valores e mundivisão dos povos indígenas, essa literatura é naturalmente marcada pela reivindicação identitária e pela resistência face aos juruás, “que continuam forçando para que nos aculturemos cada vez mais, esquecendo a nossa identidade”, como denuncia Karai Tataendy (Adão Antunes), das aldeias catarinenses Morro dos Cavalos e Massiambu (apud Bond, 2008). Num gesto de afirmação e resistência, aliás, é que povos de tradição eminentemente oral se dispõem a registrar suas narrativas seculares por escrito, e em língua portuguesa: só assim logram legitimá-las perante a cultura branca dominante.

Mas trazer seus contos e lendas de tradição oral para o âmbito da literatura (do latim, arte de escrever) também é oportunidade, para os povos indígenas, de se reapropriarem de suas narrativas ancestrais, dando nome, autoria e pertencimento a histórias que, em cinco séculos de dominação, foram em boa parte absorvidas pela cultura branca — qual obras estrangeiras traduzidas —, a ponto de se tornarem “lendas brasileiras”.

Inversa e curiosamente, porém, assim que acedem, pela língua portuguesa escrita, ao status de literatura, passam a ser identificadas como “literatura indígena”, expressão impregnada de estrangeiridade (também dizemos “literatura hispânica”, “africana”, “nórdica”...). E rejeitada, por isso mesmo, pelo escritor Olívio Jekupé:
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Sim, eu me intitulo como escritor de literatura nativa [...] porque comecei a refletir que nossa escrita vem direto de nós, do pensamento do nosso povo, e não de ideias de fora. Por isso, se nós somos um povo nativo, então nossa literatura tem que ser nativa também. (Lessa; Ramos, 2013, p. 32)

Essa ambígua (para dizer o mínimo) condição dos povos indígenas na sociedade brasileira — em que nativo se faz sinônimo de estrangeiro, e integração se confunde com uma assimilação sinônima de exclusão – não deixa, por um lado, de se confirmar e perpetuar nas edições monolíngues.

Não que a ninguém ocorra negar o valor e importância dessas produções, incontornáveis para que a literatura nativa ocupe o espaço que lhe cabe nas letras brasileiras, e no mercado editorial. Mas certo é que, na medida em que limitam este espaço à língua portuguesa dominante, falham em incluir isso que historicamente sempre se fez por excluir: a identidade cultural dos povos originários.

Ao passo que, como observa Christiane Perregaux a respeito de edições bilíngues envolvendo línguas minoritárias,

postas lado a lado, as línguas de uns e de outros logram essa mesma dignidade de figurar num livro, de oferecer uma abertura cultural que a oralidade propõe e o livro legitima, numa sociedade do escrito. (Perregaux, 2009, p. 134).

Em Massacre indígena guarani, o relato de um autor indígena fiel à versão de seu povo alcança seu pleno significado quando a língua guarani — e através dela, todos os seus falantes — se faz visualmente presente.

Figura 1 – Massacre indígena guarani, detalhe da p. 21.

Mas o livro bilíngue, se representa um movimento de abertura para e com o outro, também diz muito sobre o teor e intensidade desse movimento, o contexto em que se realiza, os limites em que esbarra, os rumos que sugere — todo livro sempre retrata, afinal, de uma ou outra forma, a ordem social que o vê nascer.

Chama imediatamente a atenção, neste caso, as duas línguas não se encontrarem lado a lado. Os textos vêm um após o outro, ocupando um mesmo livro em espaços demarcados, e diferenciados — português primeiro, em páginas brancas, seguido pelo guarani, em páginas verdes. Como pressupondo, mais que a leitura cotejada, duas leituras paralelas, por dois públicos leitores.

Figura 2 – Massacre indígena guarani, abertura do texto em português (p. 7) e do texto em guarani (p. 19).

E nada, nem em letras miúdas na página de créditos, indica formalmente a presença de um mediador entre eles. Como se Luiz Karai, |3| assumindo a autoria dos dois textos, propusesse um improvável livro bilíngue contendo dois originais. E de fato, ao menos para quem desconhece a língua indígena, a impressão é de dois textos distintos em seu ritmo e estrutura (figura 2). Dois textos que talvez não correspondam exatamente um ao outro, se já nos títulos observa-se que juruá só aparece no guarani. Dois textos desiguais, além disso, em peso e medida, pois tudo indica que a obra foi concebida prioritariamente para os leitores não indígenas.

Somente o texto em português é ilustrado pelas aquarelas de Rodrigo Abrahim, ganhando assim maior destaque e número de páginas (p. 7-17), enquanto o texto em guarani se queda discreta, talvez timidamente, como um apêndice, no final do volume (p. 19-23).

Figura 3 – Massacre indígena guarani, p. 7 (detalhe).

E somente no texto em português se encontra o único gesto tradutório do livro: saltam aos olhos, a cada página, termos e expressões guaranis, grifados e traduzidos em notas de rodapé. Um gesto insólito, senão impróprio, numa edição bilíngue que já traz o texto guarani por inteiro. E à primeira vista supérfluo, já que tekoa ou kavure poderiam vir simplesmente em português como “aldeia Kavure” sem obrigar o leitor a um desvio pelo pé de página (figura 3). Um gesto perfeitamente afinado, porém, com o expresso propósito do autor, para quem o livro representa “uma boa oportunidade de entrar em contato com a cultura dos guaranis” (Karai, 2008). Compreende-se, na ênfase a alguns termos e expressões fortes da cultura guarani, a clara intenção, pedagógica, de que estes sejam notados e apreendidos, mesmo pelos pequenos (e adultos) leitores que não pretendem aprender a língua.

Figura 4 – Massacre indígena guarani, capa.

Essa espécie de “intrusão” do guarani no texto português imprime mais largos significados, porém, a uma obra que, já desde a ilustração da capa (figura 4), se propõe a

contar uma história real pelo ponto de vista dos índios, o que geralmente não acontece. É interessante notar que no enredo os “selvagens” são os “não índios” e os homens “civilizados” são os “habitantes da tribo”, versão diferente da que normalmente nos é passada. (Karai, 2008)

Dar a conhecer a cultura guarani passa necessariamente, em Massacre, por recolocar em perspectiva imagens cristalizadas por séculos de dominação. Passa por ressignificar conceitos impostos à realidade indígena pela língua portuguesa, como “selvagem” ou “civilizado” — e fazer isso através da própria língua escrita, prerrogativa do juruá e uma de suas armas de exclusão. Mas, se “apresentar para os não índios uma história ensinada por meio da oralidade aos pequenos indígenas” (Karai, 2006, quarta capa) requer adequar a tradição oral às normas da cultura escrita, inverter o prisma narrativo para contar a história “pelo ponto de vista dos índios” (Karai, 2008) também implica, inevitavelmente, em transtornar algumas regras comumente aceitas.

É apenas coerente com o propósito da obra, portanto, o guarani “invadir” o texto português e, lançando mão de códigos estabelecidos da língua impressa, invertê-los para uso próprio. Faz todo sentido o itálico, por exemplo, que por convenção assinala palavras ou expressões estrangeiras, ser usado pelo nativo para deliberadamente estrangeirizar a si mesmo, e assim, quem sabe, por efeito de estranheza, ser visto e reconhecido enquanto outro.

Causa mesmo estranheza deparar no rodapé com um vocábulo tão familiar como pajé, de há muito incorporado à língua portuguesa, desnecessariamente traduzido numa nota que, redundante, não diz nada que já não se saiba, que já não digam os dicionários (figura 3). Mas, redundante por exigência das circunstâncias, não é desnecessária a “ocupação” do pé de página. Nesse lugar onde, reza o costume, podem os tradutores expor ou explicar seus impasses, único espaço onde se faz visível o seu fazer, é que o pajé, rejeitando a assimilação juruá, reivindica o direito de ser seu próprio tradutor. Nesse lugar reservado aos intraduzíveis é que o chefe religioso, aliás personagem central da trama, vem clamar a quem quiser ler que, mesmo incorporado à língua portuguesa, permanece inalterável em sua cultura de origem. Inalterado em sua condição de texto original — tal como, no livro, o texto em guarani.

Em meio ao emaranhado de contrassentidos que define a relação brasileira entre indígena e homem branco, por essa via torta é que logra o pajé, num livro bilíngue peculiar, transgressor em mais de um aspecto, reafirmar a precedência do seu povo originário. E sugerir, talvez, pelo vaivém a que obriga o leitor entre texto e pé de página, que reconhecê-lo enquanto outro, mesmo que exija algum esforço, é premissa sine qua non para o surgimento de um possível e efetivo diálogo entre um texto e outro, uma cultura e outra.  [...]

* * *

NOTAS:
|*| Essa ilustração não integra o artigo original.
|1| Notadamente a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (9.394/1996) que institui a oferta de uma educação bilíngue e intercultural como dever do Estado, e a Lei 11.645, de 10 de março de 2008, que torna obrigatório o ensino das culturas afro-brasileira e indígena nos ensinos fundamental e médio.
|2| Autor, entre outros infantojuvenis, de dois títulos em formato bilíngue português/guarani: Ajuda do Saci (2006) e A mulher que virou Urutau (2011), ambos pela DCL.
|3| Observe-se que Luiz Karai é tradutor profissional de guarani-português-guarani.

REFERÊNCIAS:
BOND, Rosana. | Guaranis começam a escrever a própria história |. A Nova Democracia, ano VII, nº 44, jul. 2008.
KARAI, Luiz. Massacre Indígena Guarani / Jurua reve nhande kuery joguero’a ague. Ilustrações de Rodrigo Abrahim. Ed. bilíngue. São Paulo: DCL, 2006.
_____. | Divulgando meu livro! | Histórias da aldeia. [Blog]. 2008..
LESSA, Verônica; RAMOS, Anna Claudia. “Olívio Jekupé” (entrevista). Manual Flipinha. Paraty: Ministério da Cultura / Associação Casa Azul, 2013.
PERREGAUX, C. Livres bilingues et altérité: nouvelles ouvertures pour l’entrée dans l’écrit. Figurationen, n. 1, v. 2. Zurique: Universität Zürich, 2009, p. 127-139. (tradução minha)

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